Sexta-feira, 16 de Junho de 2006

COMO ERA A CIDADE DO PORTO?

Vista do Porto antigo a partir da Rua do Loureiro
Quem pretender conhecer a fundo a história da cidade do Porto tem
forçosamente que ler as Constituições do bispado da diocese - uma espécie de
estatutos
que têm por base o direito canónico e que devem ser entendidos como um
conjunto de disposições que regulam os direitos e obrigações de clérigos e
leigos.
Por exemplo, a leitura das Constituições de 1541 e de 1585, dos bispos D.
Frei Baltasar Limpo (1537/1550) e de D. Frei Marcos de Lisboa (1582/1591)
permitem-nos
fazer uma avaliação, até ao pormenor, do que era a vida social, mercantil e
de costumes no Porto daqueles recuados tempos.
A cidade, nos meados do século XVI, apesar da importância que já tinha como
grande empório comercial, ainda estava longe de ser uma urbe vasta, populosa
e, sobretudo, requintadamente civilizada. Comparada com outras cidades
europeias suas congéneres, o Porto ocupava, por aquele tempo, dentro do
perímetro
da muralha fernandina, uma área de certo modo exígua; a sua população era
bastante reduzida, em comparação com os padrões europeus da época; e nas
suas
ruas respirava-se o mesmo ambiente dos recuados tempos medievais soturno e
imundo.
Para se entrar ou sair do Porto havia vários postigos e algumas portas das
quais mencionaremos as mais importantes a dos Carros, que ficava mesmo
defronte
da igreja dos Congregados; a do Olival, um pouco mais acima, na Cordoaria,
relativamente perto da embocadura das ruas dos Caldeireiros e de S. Bento da
Vitória; a Porta Nova ou Nobre, em Miragaia, ao fundo das Escadas do Caminho
Novo; a da Ribeira, na praça com esta mesma designação; a do Sol, em frente
ao edifício onde funciona a Universidade Lusófona; e a de Cima de Vila, à
entrada da antiquíssima rua que tem o mesmo nome.
Exceptuando a Rua das Flores, que em 1542 "andava a ser calcetada" e era "a
mais nobre da cidade" ; a Rua Nova (actual Rua do Infante D. Henrique),
aberta
no tempo de D. João I; a Rua de Belomonte e a Rua Chã; e as ruas de S.
Miguel e de S. Bento da Vitória, onde ficava a antiga judiaria, a maior
parte das
restantes artérias do Porto eram estreitas, tortuosas, escuras, húmidas e
escorregadias. Durante o dia podia transitar-se livremente por toda a
cidade.
Mas a partir do sol-posto tocava o sino de correr e ao soar da última
badalada toda a gente devia estar metida em suas casas. A Rua de S. Miguel,
ao tempo
em que nela viviam os judeus, compreendia também a actual Rua de S. Bento da
Vitória. Era nela que os algibebes exploravam o seu negócio de roupas feitas
- novas e usadas. Mas logo a seguir às leis de D. Manuel I os judeus
transferiram-se para a Ribeira e imediações onde montaram os seus negócios.
E por
1533, a Rua de S. Miguel, que fora das principais do burgo e onde havia as
melhores casas da cidade, estava quase deserta.
Fiquemo-nos por aqui, no que respeita ao aspecto físico da cidade, e vejamos
agora o que se passava no aspecto dos costumes.
Um documento de 1570 dá-nos conta de que nesse ano fora resolvido pela
Câmara arrematar as obras de pedreiro e carpinteiro a realizar na prisão da
cidade
"para se evitar a desonestidade de estarem nela misturados os homens e as
mulheres". Isto significa que os reclusos de ambos os sexos viviam
conjuntamente
na cadeia com as nefastas consequências que facilmente se adivinham.
O título de um capítulo de umas Constituições de 1541 é elucidativo quanto à
moralidade da época. Diz o seguinte ".que os homens casados não tenham
mancebas
nem os solteiros concubinas". Uma curiosidade: as Constituições não falam do
adultério da mulher, talvez porque as severas leis gerais do reino permitiam
ao marido matar a adúltera e o seu cúmplice em caso de serem apanhados em
flagrante delito. Nas Constituições são dedicados largos capítulos à
actividade
dos mosteiros da cidade onde o relaxamento e a indisciplina eram "o pão
nosso de cada dia". As mulheres estavam proibidas de passarem da portaria
quando
fossem aos mosteiros de frades do mesmo modo que se proibiam os homens de
entrarem nos conventos das freiras. Claro que havia excepções para este
último
caso: a proibição não abrangia ". o físico, o sangrador e oficiais de obras
ou quem mete as rendas e mantimentos".
Não obstante a tomada das medidas acima referidas, a verdade é que os abusos
e os atropelos às disposições das Constituições continuaram e com eles os
escândalos
e o descrédito. Há também notícia de inúmeras sátiras que se ocupam
jocosamente e de forma critica de casos picantes e grotescos que corriam de
boca em
boca.
Como era a cidade no tempo
do bispo Baltasar Limpo?
D. Frei Baltasar Limpo era natural de Moura, onde professou na Ordem do
Carmo, em 1494. Tomou posse da diocese do Porto em 1537. Um seu biógrafo diz
que
era homem de grandes letras e inteligente e que "ardia nele um vivo zelo
religioso" como aliás veio a provar-se com a sua participação no Concílio de
Trento
e do teor das intervenções que nele teve. Foi durante a administração deste
prelado na diocese que se realizou o único auto de fé que houve no Porto, em
11 de Fevereiro de 1543. D. Frei Marcos de Lisboa era da Ordem de S.
Francisco. Tomou posse da cátedra portucalense em 1582 tendo administrado a
diocese
por cerca de dez anos. Em 1574 acompanhou o rei D. Sebastião na sua primeira
jornada a África.

saudações do Fernando Teixeira

publicado por tradicional às 18:04
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