Sexta-feira, 16 de Junho de 2006

O Porto do tempo de D. João I

Reportagem da visita que um rei fez ao Porto
O Porto do tempo de D. João I

O monarca que visitou a cidade foi D. João I, o de Boa Memória; e a
"reportagem", naquele tempo chamada crónica, esteve a cargo de Fernão Lopes.

Tudo isto se passou há mais de 600 anos, nos finais do século XIV, mas a
descrição ainda tem plena actualidade porque não difere muito das que se
estapam
hoje nas páginas dos jornais. Corria o ano de 1385. Em Abril, nas célebres
Cortes de Coimbra, o Mestre de Avis foi aclamado rei. Em Agosto viu-se
forçado
a passar pelo Porto para ir ao Entre Douro e Minho combater alguns focos de
resistência em vários localidades que se haviam declarado por Castela. Ora
os portuenses, que desde a primeira hora da crise tinham estado com o
Mestre, sabendo que ele ia passar por esta cidade, prepararam-se para o
receber triunfalmente.

Por aquele tempo a população do Porto não devia ir muito além dos seis mil
habitantes. Mas a sua importância comercial e marítima, tanto a nível do
país
como do estrangeiro, era já muito importante. Como se pode depreender deste
trecho inicial da "reportagem" do Fernão Lopes quando procura descrever o
ambiente
festivo com que o rei foi recebido

" . todas as naus que eram no ria, muito cedo pela manhã, apareceram
apendoadas de bandeiras e estandartes e ornamentadas com enorme profusão de
verdes
e de ramos."

Como bom "repórter" que foi, Fernão Lopes começa por descrever o ambiente
que se vive nas ruas do Porto ainda antes de chegada do ilustre visitante ".
as
gentes da cidade, com as melhores vestiduras que cada um tem, vão e vêm por
toda a parte jubilosamente, afanosamente preparando as ruas para a
recepção."

E em que consistiam esses preparos? O cronista explica ". Cada morador
procurava vencer (ser melhor do que ) o vizinho na decoração da portaria da
sua casa
e não houve primor de que se não lembrassem."

Sabemos pela "reportagem" que ". as calçadas pelas quais o rei havia de ir
até os Paços onde havia de pousar, estavam transformadas em estrados de
ramos,
flores e ervas de bons cheiros, de tal modo que não se via um palmo do
chão."

E atentem bem neste curioso pormenor da crónica, perdão, "reportagem" ".
muitos (moradores) tinham à porta defumadoiros de tantos e tão nobres
cheiros que
bem podiam afugentar qualquer mau ar que fosse corrupto."

Como é geralmente sabido, no Porto, os reis, bispos e outras altas
dignidades davam entrada na cidade pela Porta Nova ou Nobre, que ficava ao
fundo das
Escadas do Caminho Novo, em Miragaia. Vejamos, agora, o que se passou quando
D. João I ai se dirigiu ". num grande e formoso batel, seguido de infindável
cortejo de outras embarcações, o Mestre de Avis e numerosos fidalgos da sua
comitiva atravessaram o Douro e desembarcaram na alameda de Miragaia entre
um entusiasmo delirante."

O relato dos momentos cruciais da chegada do rei é ainda hoje uma bela peça
jornalística ". estavam presentes os mais representativos cidadãos do burgo,
ricamente vestidos com guarnições de oiro e prata e muito povo; um deles
empunhava um rico pendão - insígnia da cidade; não muito longe via-se o
senhor
bispo em Pontifical e sua clerezia com as melhores e mais ricas alfaias; e
saiu el-rei em terra por uma larga e espaçosa prancha; e o beijar de mão e o
mantenha-Vos Deus, Senhor, era tanto que só ao fim de um bom espaço que se
nisto detiveram, pode usar da palavra aquele do povo a que disto era dado
cargo
e que detinha o pendão e só então ele disse: Senhor tomai esta insígnia em
vossas mãos e por ela nos poemos (colocamos) em vosso poder e vos fazemos
preito
e homenagem de vos servir com os corpos e haveres." Entretanto, pelas ruas
"novos e velhos dançavam e foliavam organizados em grupos de que, à mistura,
faziam parte tanto homens como mulheres". E o cronista acrescenta este
curioso pormenor: ". não só as mulheres de meão estado e condição mas muitas
das
boas da cidade andavam com elas por honra da festa." E veio o desfile: ".
el-rei ia muito passo pela cidade, que não podia de outra guisa, porque a
gente
era tanta pelas ruas , pelo ver, que parecia que se queriam afogar." E não
era S. João.

Era muito diferente a cidade de hoje da do tempo em que ocorreu o
acontecimento que deu origem à "reportagem" a que fazemos referência aqui ao
lado. O Porto
era, além de muito mais pequeno, escuro e sujo, e daí a necessidade dos
defumadoiros de que fala Fernão Lopes na sua crónica. Estava cercado por
grossas
muralhas de granito começadas a construir no tempo de D. Afonso IV e as suas
ruas principais, naquele tempo, eram as ruas dos Mercadores, do Souto,
Bainharia,
Reboleira e Fonte Taurina, por onde, naturalmente, o cortejo real desfilou.
A cidade de há pouco mais de seiscentos anos resumia-se ao interior do
perímetro
que estava dentro da muralha fernandina. Isto significa que só o cimo da
Penaventosa, onde está a Sé, a zona do Barredo e uma parte da Ribeira tinham
casas.
No sítio onde está a Rua de Mouzinho da Silveira, corria um rio, o da Vila,
e havia apenas dois mosteiros - o de S. Domingos e o de S. Francisco. E fora
das muralhas e numa boa parte da colina da Vitória, havia hortas, bosques e
pomares. Cedofeita, Massarelos e Campanha ficavam longe, no sertão.

saudações do Fernando Teixeira

publicado por tradicional às 18:29
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