Domingo, 25 de Junho de 2006

CASTELO DE SERPA

Muito lindo este castelo abandonado pela sorte e pelo homem, destruído pelas
guerras em que esteve envolvido.

Meia dúzia de quilómetros além-Guadiana, e assentes sobre um outeiro de
razoável elevação, situam-se a vila de Serpa e o castelo que lhe acompanhou
a história.

         Desde remotas idades pré-históricas as características topográficas
atraíram para esse alto ocupação humana à qual vieram sobrepor-se as
migrações de povos vindos do centro e do sul da Península no decurso do
primeiro milénio antes de Cristo. Adveio depois à região o domínio romano,
primeiro de ordem militar, e depois de ocupação civilizadora, com cuja
quadrissecular existência se inauguraram os tempos propriamente históricos
da povoação. Deles, é certo, pouco se sabe, além de que já então ela se
chamava Serpa, pois se denominavam serpenses os seus moradores; mais contudo
do que a respeito dos da breve instalação de Alanos e Vândalos na Bética, ou
dos da fugaz irradiação meridional dos Suevos, ou mesmo dos do assaz longo
domínio visigotico, pois do que então porventura tenha acontecido não há
praticamente conhecimento.

Sobrevindo, porém, no começo do século VIII, a invasão árabe-berbere, quase
toda a Península ficou submergida pela avassaladora onda muçulmana; Serpa só
veio a ser arrancada a esse domínio, mas ainda apenas temporariamente,
quando em 1166, guerreiros portugueses do bravo Geraldo Sem Pavor, ou do
próprio Rei, D. Afonso Henriques, dela se apossaram conjuntamente com
algumas outras povoações, de além Guadiana.

Temporariamente, pois a grande ofensiva elmóada em 1191 reconquistou, com
excepção de Évora, tudo quanto do Tejo para o sul fora português. Posse,
aliás, temporária também, pois as terras então perdidas foram pouco a pouco
recuperadas; Serpa e outras da região voltaram a ser portuguesas quando
conquistadas por D. Sancho II em 1232. Vinte anos depois, impugnado pelo
monarca castelhano Afonso X o domínio do Algarve, cuja conquista os
portugueses, reinando D. Afonso III, tinham pouco antes terminado, os das
terras de além  Guadiana igualmente se inseriram nessa disputa, que com o
tempo veio a ser atenuada pelo influxo das relações de família estabelecidas
entre a Coroa de Portugal e a de Castela. Serpa e outras vilas de além
Guadiana foram cedidas a Afonso X em 1271, mas em 1283, sendo já D. Dinis o
rei de Portugal, aquele as doou a sua filha, Beatriz, viúva de D. Afonso III
e mãe do novo monarca português. Porém, teve de esperar-se ainda uma dúzia
de anos para que essa doação se tornasse efectiva, pois isto só ocorreu
quando a política de rectificação da fronteira luso-castelhana,
decisivamente empreendida por D. Dinis, se corporizou na primeira cedência
castelhana, a das terras que além do Guadiana, e incluindo então Olivença,
são hoje portuguesas, Nesse ano, 1295, outorgou aquele monarca a Serpa o seu
primeiro foral, concedendo as regalias de que já gozava Évora.

         Serpa era povoação fortificada; e pode mesmo imaginar-se que alguma
fortificação, embora pequena, a defendesse já no tempo do domínio romano,
pois por junto dela passava o ramo da rede vial romana que, vindo de Beja,
se encaminhava ao sul da Hispânia. Se assim foi, os sucessivos dominadores
não deixariam de ampliar essas obras defensivas, e particularmente durante o
domínio muçulmano isso ocorreu, como iniludivelmente o inculcam as
alternativas de conquista e reconquista, havendo mesmo nos referidos
documentos de 1283 e 1295 expressa referência ao castelo. Foi, porém, D.
Dinis quem às fortificações de Serpa consagrou definitiva atenção, pois Rui
de Pina, recordando na sua crónica memórias desse monarca, a incluiu entre
as terras cujos «alcáceres e castelos fez de fundamento».

         Á grandeza e importância da reconstrução amplificadora ordenada por
D. Dinis podem avaliar-se contemplando o desenho das fortificações serpenses
incluído por Duarte d´Armas no seu Livro das Fortalezas, desenhado nos
começos do século XVI, pois não consta que depois da época dionisíaca elas
tivessem sido objecto de quaisquer modificações. Pode ver aí o imponente
conjunto defensivo, ainda intacto nesse arrabalde Quinhentos: a dupla
muralha fortemente torreada, que defendia a vila, e mais acima, no mais alto
da elevação, a do castelo igualmente guarnecida de numerosos torreões
cilíndricos e quadrangulares, cercando o terreiro; finalmente dentro deste o
reduto último, a imponte torre de menagem.

         Torres e muralhas então intactas tinham sido testemunhas de
patrióticos feitos no tempo em que, como regente e depois como rei, o Mestre
de Avis, D. João, defendera a independência nacional contra as pretensões de
outro D, João, o rei de Castela, marido da infanta portuguesa D. Beatriz,
filha do falecido monarca português D. Fernando, e a quem caberia legalmente
a coroa portuguesa se dela a não afastassem os perigos que para a autonomia
de Portugal representava essa união matrimonial.

         Com efeito, Serpa apoiou desde o começo da crise o partido do
Mestre de Avis, e por vários anos serviu de concentração das forças
portuguesas que repetidamente invadiram as regiões castelhanas fronteiriças
em vitoriosas expedições predadoras, embora também as suas cercanias no
termo concelhio por vezes tivessem sido devastadas por incursões
castelhanas.

         Essas operações militares foram decerto as que, alegando guerras a
par do influxo de pestes, os moradores de Serpa invocaram nas Cortes de 1455
como determinadoras do grave decréscimo da população, para remédio do qual
pediam ao monarca que concedesse aos moradores, de futuro ali chegados,
isenção quase completa, durante vinte anos, de serviços militares ou
municipais; D. Afonso V, porém, limitou a concessão a estrangeiros e reduziu
a dez anos o indicado prazo.

         Nas guerras dos tempos modernos, movidas a Portugal, ou em que a
coroa portuguesa se imiscuiu, sempre Serpa foi atingida. Assim, as tropas de
Sancho d´Avila dela se apossaram em 1580, quando quase desguarnecida, mas
aclamou D. João IV logo após e hora da Restauração. No decurso da
subsequente guerra luso-espanhola, projectou-se construir novas
fortificações à moda de então, mas não se passou dum tímido começo. Em
iguais circunstâncias de penúria militar a conquistaram as tropas espanholas
do Duque de Ossuna, no decurso da chamada Guerra da Sucessão, e por esta
ocasião se acrescentou aos normais agentes da destruição das velhas
fortificações, tempo e incúria, uma violenta explosão que arruinou de uma
das torres.

         Pouco a pouco, ao longo dos tempos, largos panos de muralhas,
torreões, e portas foram cedendo aos agentes da natureza, quando não à
própria acção humana; mas ficou de pé, coroando vários outros restos, a
quase intacta torre de menagem, testemunha à evocação de multissecular serie
de heroísmos.

publicado por tradicional às 14:58
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