Sábado, 15 de Julho de 2006

O Abolicionista John Brown

J. Brown, o controverso líder abolicionista (1800-1859)

Quase todo o evento histórico de grandes dimensões é, por assim dizer, precedido por um outro, de proporções bem menores, que premonitoriamente o anuncia.
Com a guerra civil norte-americana, travada entre 1861-65, não foi diferente, antecedida em poucos meses por uma curiosa, dramática e sangrenta incursão
militar provocada por ativistas abolicionistas. O assalto ao arsenal federal de Harpers Ferry, na Virgínia, liderado por John Brown, galvanizou por umas
semanas a atenção da opinião pública americana, ao tempo em que sinalizou o conflito que iria ocorrer dezesseis meses depois por todos os Estados Unidos
da América.

A impaciência com a escravidão

reprodução

A guerra do Kansas: abolicionistas vs. escravistas, 1857

Desde que Thomas Jefferson, na hora da redação da Declaração de Independência de 1776, fora pressionado pelos convencionais, seus colegas, a suprimir qualquer
menção no texto sobre a abolição futura da escravidão no regime recém-fundado, que os Estados Unidos vivia como se fosse uma casa dividida - como bem lembrou
depois Abraão Lincoln, em memorável discurso. Metade dela era livre, metade era escrava. Os inúmeros movimentos e associações pró-abolicionistas, que desde
aquela época se constituíram na América, mostraram-se, entretanto, impotentes em dar uma solução à tragédia social e moral que representava a "peculiar
instituição". Quase um século se passara desde que os colonos ingleses haviam fundado a república, anunciando ao mundo terem-na instituído em nome da liberdade,
proclamando em alto e bom som pertencerem à nação mais livre do mundo. Contraditoriamente, porém, a metade dos Estados que a compunham, todos eles do Sul
dos Estados Unidos, continuavam firmemente escravistas. Não só isso, desde os anos de 1830, os líderes sulistas acirravam a disputa com os que defendiam
a proposta do movimento pelo "solo livre", ao redor das futuras terras do Oeste, que estavam sendo abertas à colonização. Longe da escravidão estar agonizante,
ela diariamente dava provas de querer disputar o espaço com o trabalho livre. Foi isso que levou o abolicionista John Brown à exasperação e a recorrer
à violência como solução.

John Brown

John Brown, um dos maiores nomes da luta antiescravista nos Estados Unidos, perdera as esperanças de alcançar o seu intento por meio da pressão pacífica
e do jogo eleitoral. Filho de um calvinista que abominava a nefanda instituição servil, nascido no Connecticut em 1800, desde cedo entregara-se à causa
da emancipação dos negros. Depois de ter sido dono de um curtume na Pensilvânia, mudou-se para Ohio para ser fazendeiro em Franklin Mills. Terminou fracassando.
Em 1837, profundamente chocado pelo assassinato do jornalista Elias Lovejoy, morto por uma multidão pró-escravista, jurou frente ao túmulo do linchado
que, dali em diante, ele se dedicaria a lutar pela abolição. Em 1857, na histórica cidade de Concord, no Massachusetts - berço da luta da independência
-, John Brown, já um ativista conhecido, imponente como um profeta bíblico, apresentou-se frente aos dois maiores totens intelectuais dos ianques: o filósofo
Ralph Waldo Emerson e o pacifista David Thoreau. Lamentou na peroração que fez a eles a necessidade de ter que empregar a violência, entendendo-a , contudo,
como uma vontade de Deus. Conforme o seu engajamento na causa libertária aumentava, mais sua aparência assemelhava-se a um dos personagens do Antigo Testamento.
Com o rosto marcado pela indignação moral, seu olhar se irritava com a indiferença que os outros homens demonstravam para com a grandeza do movimento que
ele participava.

(Carla)

publicado por tradicional às 11:03
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